Nos últimos anos, o câncer de pulmão avançado, antes considerado sinônimo de prognóstico sombrio, tem visto um novo desdobramento na forma de tratamento. Um estudo recente revelou que mais de 50% dos pacientes que utilizam o lorlatinibe, um medicamento específico, conseguiram manter a doença sob controle por sete anos. Essa é uma mudança significativa em um cenário onde, até pouco tempo atrás, a expectativa de vida era drasticamente limitada.
O lorlatinibe é um comprimido diário que atua especificamente em casos de câncer de pulmão com a mutação genética ALK, presente em uma fração de 3% a 7% dos casos do tipo mais comum dessa doença. A importância desse tratamento não deve ser subestimada, especialmente considerando que o câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil, com mais de 31 mil óbitos anuais, segundo o INCA.
Entretanto, o medicamento não é uma solução acessível para todos. Com um custo médio de R$ 37 mil por mês e a ausência em listas do Sistema Único de Saúde (SUS), o acesso ao lorlatinibe permanece restrito a pacientes com cobertura de planos de saúde ou aqueles que conseguiram o remédio por meio de decisões judiciais. Isso levanta questões sobre a equidade no tratamento do câncer, uma vez que a maioria dos brasileiros não pode arcar com tais despesas.
A mudança no paradigma do tratamento é clara: a abordagem atual foca em terapias-alvo, que visam mutações genéticas específicas em vez de seguir um protocolo universal baseado no tipo de câncer. Essa estratégia não apenas melhora as chances de tratamento, mas também redefine a maneira como os médicos e pacientes encaram a doença.
Paula Piteri, uma das pacientes beneficiadas pelo lorlatinibe, descobriu seu câncer aos 38 anos e, após um retorno da doença, iniciou o tratamento que lhe deu uma nova perspectiva de vida. “É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver”, reflete Paula, que agora se vê com esperanças renovadas.
Entretanto, os resultados promissores também trazem à tona desafios, como a necessidade de diagnóstico molecular adequado e os efeitos colaterais significativos que alguns pacientes enfrentam. Embora 55% dos pacientes tenham logrado manter a doença sob controle, 45% não obtiveram sucesso. Além disso, a incidência de efeitos adversos grave atinge 77% dos pacientes, o que exige reflexão sobre a qualidade de vida em meio ao tratamento.
As barreiras de acesso ao lorlatinibe e a necessidade de testes genéticos eficazes revelam um sistema de saúde que ainda precisa evoluir para garantir que todos os pacientes tenham a mesma chance de tratamento. O medicamento foi discutido para incorporação ao SUS, mas sua alta precificação impediu sua aprovação. A luta pela inclusão de terapias inovadoras no sistema público de saúde continua, refletindo a necessidade urgente de um modelo mais justo e acessível para todos os brasileiros afetados pelo câncer.


