quinta-feira, 15/10/2026

Câncer gástrico: a importância da detecção precoce em uma doença muitas vezes assintomática

O 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa, conhecido como Gastro 70+, que ocorrerá em São Paulo no final deste mês, destaca a urgência de se discutir a saúde da população…

Compartilhe:

O 1º Congresso Brasileiro sobre a Saúde Digestiva da Pessoa Idosa, conhecido como Gastro 70+, que ocorrerá em São Paulo no final deste mês, destaca a urgência de se discutir a saúde da população idosa, um tema frequentemente negligenciado fora da geriatria. A longevidade, embora um avanço da medicina, traz consigo o aumento de doenças graves, como o câncer gástrico, que atualmente registra entre 20 mil e 25 mil novos casos anualmente no Brasil. Projeções indicam que esse número pode ultrapassar 40 mil até 2050.

Em entrevista com o gastroenterologista Luiz Gonzaga Vaz Coelho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador pioneiro da bactéria Helicobacter pylori, a principal responsável pelo câncer gástrico, foram levantados pontos cruciais. Coelho alerta que a infecção por H. pylori é adquirida na infância, geralmente antes dos dez anos, e pode permanecer latente por décadas, sem sintomas, até que a doença se agrave, resultando em câncer em um em cada cem afetados ao atingirem os 60 anos.

A Organização Mundial da Saúde classifica a H. pylori como um carcinógeno de Grupo 1, o que significa que há evidências concretas de sua relação com o câncer. Países como Japão e Coreia já implementaram rastreios para detectar essa bactéria precocemente, uma estratégia que poderia ser inspiradora para o Brasil, onde condições de saneamento inadequadas agravam os riscos de contágio.

O diagnóstico precoce é um desafio, já que muitos pacientes não apresentam sintomas até que a doença esteja em estágios avançados. Coelho enfatiza que, apesar da endoscopia ser o método mais utilizado para diagnosticar a H. pylori, existem alternativas menos invasivas, como o teste respiratório e a pesquisa de antígenos fecais. Ele também adverte que, para pacientes acima de 70 anos, a endoscopia deve ser realizada com cautela, considerando o estado geral do paciente e os potenciais riscos do procedimento.

A Federação Brasileira de Gastroenterologia lançou a campanha Setembro Rubi, focando na conscientização sobre o câncer gástrico. O projeto visa identificar e monitorar grupos de risco, especialmente familiares diretos de portadores da doença, que têm até três vezes mais chances de desenvolver o câncer. A proposta inclui testes não invasivos para jovens até 30 anos e, para aqueles com mais de 30, a realização de endoscopias para avaliação mais detalhada.

Tradicionalmente, acreditava-se que o sal era o principal culpado pela gastrite, mas agora se reconhece que sua combinação com a H. pylori aumenta exponencialmente o risco de câncer. O tabagismo também é um fator de risco significativo, com a recuperação total levando até dez anos após a interrupção do hábito. Infelizmente, os sintomas costumam aparecer em estágios avançados da doença, dificultando o tratamento eficaz.

O Gastro 70+ será realizado nos dias 30 e 31 de outubro no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (Iamspe). Este congresso não é apenas uma oportunidade de aprendizado, mas também um chamado à ação para que a saúde digestiva da população idosa receba a atenção que merece.

Crédito da imagem: Foto: Pixabay — geralt (pixabay)